Homilia de Monsenhor Alfredo Melo

Homilia de Monsenhor Alfredo de Almeida Melo

(à data, Assistente espiritual do Grupo da Imaculada)

na Santa Missa de sétimo dia

“A Sra. Dra. não nos abandonou...”

“Sua Mãe guardava no coração todas estas recordações” (Evangelho). Recordações que, no mistério que acabámos de lembrar no Evangelho, o 5º mistério gozoso, estão unidas a uma grande afliçãopela qual Deus fez passar a sua Mãe Santíssima. É Ela mesma que o afirma: “Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura”. O Coração de Maria, por desígnios insondáveis de Deus, suportou corajosamente a espada de dorprofetizada por Simeão, no templo de Jerusalém, aquando da Apresentação de Jesus. “Em Maria, os sofrimentos, numerosos e intensos, sucederam-se com tal conexão e encadeamento, que bem demonstram a Sua fé inabalável; e foram além disso, uma contribuição para a Redenção de todos..... a Sua subida ao Calvário e aquele Seu “estar” aos pés da cruz com o discípulo amado foram uma participação muito especial na morte redentora do Filho.... Ela tem títulos especialíssimos para poder afirmar que “completou na sua carne” – como igualmente no seu coração – aquilo que faltava aos sofrimentos de Jesus Cristo”.(João Paulo II, Carta Apostólica “Salvifici Doloris”, nº 25).

Coração sábio e dócil, coração simples e humilde, coração puríssimo, firme e vigilante, sempre atento à vontade de Deus – é este o Coração Imaculado de Maria, digna morada do Filho de Deus, Santuário do Espírito Santo. É a este Coração Maternal que, por vontade expressa de Deus, devem ser confiados os destinos do mundo actual, devem ser consagradas as famílias e as cidades, as pessoas e instituições. Esta é a parte essencial da mensagem de Fátima. Foi com esta finalidade que nasceu, por desígnio de Deus, há cerca de 18 anos, o Grupo da Imaculada. Instrumento escolhido por Deus para lhe dar corpo e impulsionar este Movimento apostólico foi a senhora Drª Maria das Candeias.

No passado dia 20 quis Deus chamá-la à Sua Divina presença, vítima de um lamentável acidente de viação, como já todos sabemos. A notícia apanhou-nos de surpresa e causou-nos a maior consternação e dor. Teríamos feito tudo para estar presentes na hora da despedida, mas o Senhor, nos Seus desígnios de amor, permitiu que assim não sucedesse para alguns de nós. Aqui estamos hoje, unidos num só coração e numa só alma, mergulhados em dor e saudade, para sufragar a sua alma e agradecer ao Senhor e ao Imaculado Coração de Maria a vida que ela soube viver, cheia de amor a Deus e às almas, numa entrega total à missão que lhe foi confiada: levar ao mundo inteiro a devoção ao Imaculado Coração de Maria, através da construção dos monumentos que, neste momento, já ultrapassam as duas centenas, espalhados por todo o Portugal e pelo estrangeiro.

“Maria guardava todas as recordações em seu Coração”. Queremos também nós, nesta hora de dor, guardar no nosso coração as inumeráveis recordaçõesque a vida santa e apostólica da Sra. Dra. nos legou. As suas intensas orações, acompanhadas tantas vezes de grandes sofrimentos, físicos e morais, o seu zelo pela salvação das almas, que a faziam viajar por todo o Portugal em reuniões periódicas com as Comissões locais, as missões ao estrangeiro realizadas com uma fé heróica e uma confiança ilimitada na Santíssima Virgem, mesmo com o risco da própria vida – em algumas tive a graça de a acompanhar – a sua preocupação com a sã doutrina, que a levava a preparar com muito tempo de antecedência e com especial cuidado as suas lições de catequese, verdadeiramente magistrais, que manifestavam um conhecimento profundo da Bíblia e da doutrina da Igreja, a sua obediência rendida aos legítimos Pastores, que a levaram a nada programar ou realizar no campo das iniciativas apostólicas, sem o aval das autoridades eclesiásticas, a sua firmeza no que dizia respeito à fidelidade ao espírito e características do Grupo que, por inspiração do Alto, ela tinha fundado, o seu sofrimento e espírito de reparação quando chegavam ao seu conhecimento comportamentos ou atitudes ofensivas para Deus e sua Santíssima Mãe, o seu grande amor à Eucaristia que a levou a cuidar com muito carinho tudo o que dizia respeito ao Oratório da Sede e Casa onde vivia, tendo merecido a graça de ter o Santíssimo de modo habitual nesse Oratório, a sua preocupação pelo bem estar espiritual e pela união das famílias, o seu desvelo constante pelos membros do Grupo em dificuldade ou com problemas de saúde, o que a levava a telefonar com frequência para saber como estavam, se tinham chegado bem a casa, após alguma viagem, etc, etc. 

Todas estas recordações queremos guardar no nosso coração, para lhes dar continuidade. O Grupo da Imaculada viverá e crescerá cada vez mais, como até agora, pelo impulso maternal do Coração de Maria, em união íntima com o Coração de Jesus. A consagração que, no final da Missa, iremos fazer, foi composta por ela e pode ser considerada uma das suas últimas vontades, não sem a inspiração do Alto, tal como o escapulário, cuja aprovação por escrito esperamos ansiosamente da parte da Autoridade competente. Pedimos ao Senhor que nos dê a todos um coração puro e dócil, para que, observando docilmente os seus Mandamentos, O amemos sobre todas as coisas e sejamos apóstolos incansáveis ao serviço da mensagem de Fátima.

A senhora Doutora não nos abandonou. A nossa fé e a nossa esperança dizem-nos que ela está em Deus e Deus jamais abandona os Seus filhos. Contamos agora com a sua ajuda muito mais eficaz, pois, estando em Deus, ela estará presente em todos os locais em que há monumentos, ela continuará a ajudar-nos com a s suas orações a todos os membros do Grupo que lhe foi tão querido na terra e pelo qual ela entregou a sua vida, até à imolação de si mesma. Estava em pleno trabalho apostólico, visitando as Comissões locais na região de Viseu; ao saber que estava a morrer o seu irmão, para lá se dirigiu apressadamente, para o confortar com a sua presença; Deus esperava por ela às portas de Beja, para dar-lhe o prémio de todos os seus trabalhos e canseiras. Entretanto o seu irmão, na passada 4ª feira, precisamente oito dias depois, foi chamado por Deus à Sua presença. Pedimos também pelo seu eterno descanso.

O Grupo da Imaculada continuará pelos séculos, espalhando a devoção ao Imaculado Coração de Maria, porque Deus o quer. Está nas nossas mãos que ele continue vivo e cresça cada vez mais. O que importa é que sejamos fiéis. Deus e a nossa Mãe do Céu estão empenhados em que assim seja. Não pudemos duvidar nem hesitar. União, humildade e muita oraçãoé o que agora se impõe e exige de todos nós, como nos pediu, com emoção, o grande amigo D. Custódio Alvim Pereira, lá de Roma, quando soube do que tinha acontecido. Não temos que inventar nada. O que temos de fazer é continuar a trabalhar como até aqui, sem modificar uma vírgula no que é essencial do espírito da Fundadora, conforme Deus lho comunicou.

Uma palavra de apreço, acompanhada de uma fervorosa oração ao Senhor e à Santíssima Virgem, pela D. Angelina, sua fiel Secretária e Cofundadora, como ela já lhe chamou antes de morrer. Como sabemos, está hospitalizada em Lisboa, nos Cuidados Intensivos, no Hospital de S. José. Humilde e fiel Servidora, ela foi sempre um apoio constante, em todos os momentos, para a senhora Doutora. Rezemos por ela, pelo seu rápido restabelecimento. Que o Imaculado Coração de Maria no-la traga de volta, para bem de todo o Grupo e para o enorme e vasto trabalho apostólico que nos espera nos próximos anos.

Que o Coração Imaculado de Maria nos conceda de Deus a graça de amarmos sempre a cruz, de descansar na cruz, salvando e iluminando os demais com a nossa entrega generosa, sem nos queixarmos, antes sentindo essa alegria de que falava o Apóstolo S. Paulo: “Alegro-me nos sofrimentossuportados por vossa causa” (Col 1, 24). Encontrar a cruz é encontrar Cristo. E com Ele há sempre alegria, mesmo diante da injustiça, diante das incompreensões, diante da dor física.

Não nos sentiremos nunca uns desgraçados, mesmo no meio de penas abundantes, de amarguras sem conta: ter a cruz é identificar-se com Cristo, é ser Cristo, e, por isso, ser filho de Deus. Bendita seja a Cruz de Cristo! Ámen.